O que é o Natal?

Por Anónimo, Último Reduto, n.º 5

O que é o Natal? É, antes de mais nada, a noite mais longa e o dia mais curto do ano. É a festa do solstício de Inverno, celebrada (sob diversos nomes) pelos nossos antepassados e pelos antepassados dos nossos antepassados, desde há milénios. Esta festa está perfeitamente integrada na nossa cultura. Jamais nada nem ninguém conseguiu desenraizá-la. Ela é a própria imagem da eternidade. É uma festa espontânea, quase instintiva. Podemos ver nela a imagem de um símbolo fundamental: a alternância dos contrários.

A festa da família. Por oposição ao solstício de Verão, cuja celebração é «aberta», a festa do solstício de Inverno é mais «fechada». Ela é, antes de mais nada, a festa de família. Influência evidente da época: quando faz frio, as pessoas juntam-se e aconchegam-se à volta do fogo. Mas a palavra família pode ter um sentido mais lato: Clã, comunidade, família espiritual (todos aqueles que têm de algo em comum). Em virtude deste aspecto «fechado», íntimo, o Natal implica o recolhimento, a doçura, a gentileza, a dádiva de si próprio.

O momento em que tudo pára. Não sabemos se o sol voltará. Os processos de vida afrouxaram o seu curso. Os homens substituem-se ao astro luminoso que já não os aquece mais. Reúnem-se para ajudar a lançar um novo começo. Uma antiga tradição pretende que, durante os Doze Dias, nada gira (que ninguém teça, que ninguém lave a roupa, etc.). Trata-se de fazer um regresso sobre si mesmo, de fazer um balanço, um exame de consciência, para depois tornar a partir, como o sol, para um novo ano.

A festa do que recomeça. Em Roma, a figura do deus Janus abre o novo ano. Poderíamos também evocar Dyauh ou Heimadllr. É sempre a mesma ideia de uma equivalência entre aquilo que se fecha e aquilo que se abre, entre aquilo que se acaba (o ano passado) e aquilo que começa (o ano que vem). As duas velas de Jul são o símbolo disso. A certeza do Eterno Retorno: o que tem sido será, o que foi voltará, etc. O passado é a memória do futuro. Mas este regresso não é apenas uma simples repetição. Da mesma forma que tradição é um molde para as inovações, também tudo muda no interior de uma estrutura idêntica. O passado dá exemplos, mais do que modelos. É sempre o mesmo sol, mas também nunca mais será o mesmo sol. É sempre o mesmo homem, mas não serão jamais os mesmos homens. Tudo está em constante mutação.

A festa da recordação. Porque justamente tudo retorna, é preciso que nos lembremos daqueles que nos precederam. Antes deste solstício, outros solstícios tiveram lugar. Alguns deles foram particularmente marcantes. Solstícios de alegria, mas também solstícios de dor. Solstícios de província e de aldeias anónimas. Solstícios de florestas profundas, onde a gente se reconhece na noite espiritual, à única luz das tochas de esperança. Solstícios de combate, de sofrimento, de destreza. Esta a recordação dos nossos antepassados, sem os quais nós não existiríamos. E também dos ausentes, dos desconhecidos, que pertencem à nossa família espiritual. Por fim, a recordação dos que ainda não estão connosco (o futuro).

A festa daquilo que não morre. Sim, durante a noite tudo parece negro e sem vida, mas a noite também é uma promessa. Esta promessa é a sua verdade profunda. Porque é sob o gelo, a vida apresta-se a renascer, as plantas a brotar, os ribeiros a correr. Uma renascença está em segredo em andamento. Do Inverno renascerá não somente a próxima Primavera, mas sim milhares e milhares de Primaveras que se lhes seguirão. Devemos ser como esta imagem: uma promessa de luz, no mais escuro da noite. Ser o compromisso do futuro.

Uma festa essencial. Não somos daqueles a quem a vida activa faz esquecer as festas, ou dos que não celebram os ritos. Nós integramo-los na nossa vida quotidiana, damos-lhe o seu verdadeiro sentido. Porque a festa é indissociável da nossa maneira de ser. Ela é inseparável da vida, e as ideias verdadeiras só o são quando vividas. A convicção não chega. As boas ideias não chegam. Temos em casa bons livros, bons jornais, está certo. Mas isto não é nada se, por altura do Natal, a casa em que vivemos está vazia. Vazia de coroas de folhas, vazia de um pinheiro, de visco, de azevinho, de velas, etc. Aquele que não compreende que o estilo de vida conta mais que a própria vida e aquilo que dela se faz, esse não compreende quase nada.

Amanhã. Não vivemos uma página luminosa, uma página solar da nossa história, mas uma página sombria, negra e gelada. Vivemos o inverno do pensamento. Clamamos a primavera da renovação! No Natal, festejamos os verdes (os evergreen). As árvores que podem permanecer elas mesmas, e continuam a transformar-se, quando passam as estações — e que as outras murchem. Sejamos também os sempre-verdes. Saibamos permanecer nós mesmos e transformar-nos ao mesmo tempo. Sejamos o símbolo vivo das certezas reencontradas. O sol voltará!

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