Entrevista com Miguel Ezquerra

Miguel Ezquerra foi um dos últimos defensores de Berlim, combatendo até ao fim o avanço das hordas comunistas entre as ruínas da cidade. Dele existe em português um livro de memórias, recentemente reeditado. A entrevista a seguir transcrita foi publicada na já extinta revista Último Reduto.

* * *

Há vários anos que não via Miguel. A sua epopeia é conhecida. Primeiro na Cruzada de libertação espanhola, depois como voluntário da Divisão Azul, que combateu o comunismo na própria estepe russa, mais tarde, nos momentos difíceis, na encruzilhada da História, quando o mundo punha em jogo, não duas partes contundentes, mas duas culturas, duas civilizações, dois conceitos da vida e da História, ali estava Miguel Ezquerra, de rosto voltado para o inimigo sempiterno, valente e heroicamente, como testemunho e como exemplo, dando a cara à morte e batendo-se entre dois fogos para defender o último bastião da honra e da dignidade. E, no final da contenda, naquela cidade do Reich, naquela amálgama de ferros retorcidos e casas derrubadas, no meio daquele montão de cordilheiras de escombros onde antes existiam avenidas, entre aqueles rapazes imberbes da Juventude Hitleriana, ali estava Miguel Ezquerra a escrever uma página ilustre e a pôr um acento latino e ibérico na batalha de Berlim.

Marquei o número do telefone de Miguel, anotado numa velha agenda. Do outro lado do fio respondeu uma voz feminina onde reconheci imediatamente, não obstante tanto tempo decorrido, a voz afável da mulher de Ezquerra. Ao perguntar-lhe pelo marido, depois de ter-me dado a conhecer, trocamos algumas palavras de cortesia. Miguel pegou no telefone e… todo aquele tempo que gastamos a falar, condensou-se num breve instante. Voltava a repetir-se aquele «como dizíamos ontem…», como se, no nosso último encontro, nos tivéssemos despedido com um simples «até logo». Conversamos durante vários minutos, tendo eu manifestado a vontade de lhe fazer uma entrevista para a publicação Último Reduto, editada no Porto. Tudo foi rápido, e, no dia seguinte, encontrava-me em sua casa, onde era esperado pelo meu velho e inestimável amigo e onde, depois de uma conversação amena e agradável saboreámos familiarmente um café fumegante.

Miguel Ezquerra é um homem jovial e um conversador sereno; é um homem que fala com o coração e exterioriza com a expressão terna e contundente dos seus olhos claros. O seu relato foi de um interesse notável. Ele foi um protagonista da primeira linha e, quando fala de factos e de efemérides, não o faz por tê-los ouvido narrar: fala na primeira pessoa do singular.

P.: Como foste escolhido para dirigir os espanhóis que combateram até ao fim da II Guerra Mundial?

R.: Uma ordem assinada pelo próprio Hitler autorizava-me a alistar todos os espanhóis, onde quer que se encontrassem, trabalhando em fábricas, enquadrados noutras unidades e inclusive na prisão, que quisessem fazer parte dos comandos.

P: Como eram os combatentes da unidade Ezquerra?

R.: A minha unidade era formada por todos aqueles que queriam honrar o seu juramento e que tinham já forjado a sua têmpera no campo de batalha. Na minha unidade não havia novatos nem pusilânimes, daqueles que nada têm dentro de si próprios. Os meus soldados não eram uma tropa mercenária, mas homens iluminados por um ideal e dispostos a defender um dos últimos redutos da Civilização, ameaçado pela maré vermelha.

P.: Qual foi o sector que te destinaram para a defesa na capital do Reich?

R.: Foi o da zona dos Ministérios, situada entre as ruas Hermann Goering, Friedrich e Unter den Linden. Também ficámos de prevenção para colmatar qualquer brecha onde quer que surgisse. Não tínhamos tempo para descansar. Nem sossego. Acudíamos a todos os lugares ameaçados, lutando de edifício em edifício, casa a casa, piso a piso, em ruas e praças, defendendo o terreno palmo a palmo. Naquela defesa inaudita, juntávamo-nos aos valentes rapazes da Juventude Hitleriana — cujo valor jamais se apagará da minha memória — e a estóicos soldados alemães curtidos em todas as frentes.

P.: Que espectáculo apresentava Berlim nos últimos dias da guerra?

R.: Espantoso! Terrível! Mas, no fundo, maravilhoso, ao ver-se aquela gente preferir morrer a render-se. Recordo-me do caso de um velho sapateiro, cujos dois filhos tinham morrido na frente do Leste, pedir-me uma pistola para morrer a defender a sua pátria, dizendo-me que se o carregador acabasse a última bala seria reservada para si próprio. Ele não queria ver o final daquele mundo novo — o nacional socialismo — que, quando começava a amanhecer, com poucos anos de vida, forças tenebrosas afogavam em sangue.

P.: Como foi a tua entrevista em Hitler nas vésperas do fim?

R.: A minha entrevista com Hitler foi muito breve. Ao vê-lo, perfilei-me e permaneci rígido conto uma estátua. O Führer adiantou-se e, olhando-me fixamente nos olhos, começou a falar. Então compreendi a fascinação que aquele grande condutor do povo alemão exercia, quer sobre os homens, quer sobre as massas. Conferiu-me a cruz de cavaleiro; respondi-lhe laconicamente, agradecendo a honra que concedia. Hitler estendeu-me a mão e olhou-me, como se quisesse adivinhar os meus pensamentos. Repetiu que se sentia orgulhoso de nós e deu por terminada a entrevista. Foi a minha despedida daquele grande Chefe de ar algo fatigado mas muito tranquilo, de forma alguma completamente destroçado, como se comentou e repetiu até à saciedade em livros e revistas.

P.: Como era a Europa dos heróis com que sonhavas, na tua juventude?

R.: Era uma Europa digna, cavalheiresca, com respeito pelas pedras e lares da nossa civilização, como a família, célula primária social e racial. Para mim, existiam dois valores intrinsecamente ligados, que eram a Pátria e a Dignidade ou a Dignidade e a Pátria. Esses valores superiores, elevados, altruístas, nobres, eram os atributos que implantávamos nos nossos sonhos de uma Europa no futuro. Sabíamos que a empresa não era fácil, que os inimigos eram muito, que o materialismo tudo faria para afogar o espiritual. Mas havia que tentá-la e, uma vez iniciada, defendê-la até ao último reduto.

Deixamos de falar da História passada; formulei-lhe uma pergunta sobre a história recente, sobre a multitudinária manifestação que reuniu em Madrid quase um milhão de pessoas, por ocasião do aniversário de Francisco Franco, Caudilho de Espanha, e de José António Primo de Rivera, fundador, guia e capitão da Falange Espanhola. O Governo, torpemente, tentou impedir a comemoração do aniversário, mas o povo de Madrid saiu para a rua na manhã ensolarada de 27 de Novembro entre um flamejar de bandeiras nacionais e um grito unânime de patriotismo e de esperança.

P.: Como julgas tu, Miguel, a vaga humana que, espontaneamente, se manifestou nas ruas de Madrid, o ano passado, motivada pelo 20 de Novembro?

R.: Foi uma grande alegria, uma alegria imensa e um erro crasso do Governo tentar proibir que nos concentrássemos na Praça da Lealdade, como devia chamar-se. Foi uma lição dada ao mundo: apesar de todos os inconvenientes e dificuldades e da campanha da imprensa e da televisão contra a celebração do acto o povo espanhol teve o gesto galhardo da fidalguia. Ninguém conseguirá amarfanhar o nosso povo. Como pode ver-se há ainda muita gente que não perdeu a honra e que ainda sente vergonha. A minha alegria foi ainda maior ao verificar que essa grande multidão era integrada pela juventude da Espanha, e isso foi com que um sopro de confiança de ânimo para o futuro.

Com estas palavras de conforto, pusemos ponto final a uma entrevista que durou algumas horas, da qual destaquei o mais interessante. Lá fora, em Madrid, a temperatura era rigorosa. Uma chuva miudinha começava a humedecer o pavimento da grande urbe. Miguel acompanhou-me até à porta, disse-me um «hasta siempre»…

De forma reflexa e instantânea, os nossos braços direitos levantaram-se, tal como flechas, em direcção ao céu…

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